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Cafê

Eu tenho muitos amigos. E a maioria deles é bem legal. Não se preocupem, não citarei nomes dos que estão incluídos na minoria. E quando viemos morar em Portugal, pensei que seria quase impossível fazer novas amizades tão importantes pra mim quanto as que eu já tinha. Achava que meu coração já tava lotado e tava bom assim. Na primeira semana eu já entendi que eu tava errada e que Lisboa podia ser ainda melhor pra mim do que eu imaginava.

Nesse tempo aqui já passeei com alguns amigos de amigos, já escrevi roteiros pra pessoas que nunca vi, já pude conhecer melhor pessoas com que tinha pouco contato, já levei novos amigos de infância pra comer delícias lisboetas. Teve gente que veio rapidinho, que só passou, que permaneceu uma temporada e gente que ficou pra sempre. A Fernanda é uma das pessoas incluídas nesse último grupo.

Graças à Ana Paula nos conhecemos e ela sempre ajuda a deixar meus dias por aqui ainda mais bonitos e divertidos. Eu e Fernanda temos várias coisas em comum. Medo de dar estrela quando éramos crianças, gosto musical, amor por Lisboa, sempre achar que vai dar tempo, ter a língua muito perto do cérebro, entre outras. Mas uma das principais, e extremamente presente em nosso dia a dia, é o apreço pela boa comida. Em especial a paixão pela boa comida feita em Portugal.

É verdade que comer mal por aqui é difícil, a pessoa tem que se esforçar pra que isso aconteça. E não sou só eu que penso assim. Alguém bem menos exagerado já disse o mesmo. Mas algumas dicas certeiras são sempre bem-vindas, né! E como eu e Fernanda temos como principal meta de vida conhecer e reconhecer os melhores restaurantes dessa cidade, quiçá do país, escreveremos frequentemente sobre os lugarzinhos que a gente adora. 

Segue o instagramzinho (@cafelisboeta) pra já começar a dar água na boca.

Dia 32 - As pontes entre nós

Eu e Leandro crescemos em Angra dos Reis, uma cidade no litoral do Rio de Janeiro, que fica pertinho de Parati. Essa região foi descoberta pelos portugueses em 1502, na segunda expedição deles pra cá. Só 2 aninhos depois da chegada em Porto Seguro. Essa região carrega, então, muito do estilo que a gente encontra nas nossas andanças por aqui.

O tempo todo a gente dá de cara não só com as referências do Rio de Janeiro, mas também com as lembranças da nossa infância. Um pouco de Angra, que teve sua arquitetura muito modificada ao longo do tempo, e muito do que ainda encontramos (e acredito que para sempre encontraremos) em Parati.

Meu pai tem paixão por portas e janelas e a gente não tem conta de quantas fotos ele tem de portas das casas, igrejas e prédios históricos dessas cidades. Imaginem como ele ficou louco por aqui! Quando meus pais estiveram em Portugal, eu dizia que eu e minha mãe caminhávamos sempre o dobro do que ele andava no dia, apesar de teoricamente andarmos juntos. Isso porque nós duas estávamos andando e conversando quando percebíamos que tínhamos perdido o meu pai. E voltávamos procurando ele, que estava sempre com a máquina na mão, obcecado por alguma porta.

Outra coisa que a gente sempre repara é em como as ruas são estreitas e as calçadas ridículas, principalmente nas áreas e cidades mais antigas. Em alguns lugares nem há calçada, apenas uma marca no chão que delimita o espaço do pedestre e o do carro. E temos que andar em fila indiana.

E, claro, as pedras portuguesas, que tanto nos perseguem e acabam com nossos sapatos no centro do Rio. 1001 tipos de desenhos delas. Só que aqui tem um detalhe muito importante: elas são bem colocadas. Seus saltos não ficam presos nelas e não formam poças. Vivo andando e sorrindo quando chove e eu fico lembrando de mim na Praça XV fazendo uma espécie de "singing in the rain" patético. Segundo o Lipe, meu irmão (quase) engenheiro, o que acontece é que no Brasil as pedras foram colocadas sobre uma camada de cimento e aqui diretamente sobre a terra. Às vezes eu acho que o povo aqui devia fazer umas piadas sobre a gente.


Eu já ouvi muito brasileiro falando que veio pra cá e se sentiu em casa. É fácil. Há muitas coisas que nos ligam. E eu adoro encontrar com elas por aí todos os dias.

Dia 21 - Telheiras, Quinta da Bacalhôa, Castelo de Palmela, Serra da Arrábida e Jardim de Estrela

Eita! Que título grande! Fizemos tanta coisa que dava pra dividir esse dia em 2. Mas sabia que a gente nem sente? Parece que tudo é tão fácil, perto, simples que no final do dia nem parece que fizemos tanto.

Quase sempre a gente planeja nossos fins de semana bem em cima da hora mesmo. E com esse não foi diferente. Na verdade, na maioria das vezes é o Leandro que planeja e eu estou adorando isso.

Saímos de casa em direção ao bairro de Telheiras, que não conhecíamos, para pegar o carro na locadora. Costumávamos fazê-lo aqui por perto, mas agora, por ser verão, os preços subiram muito e a única locadora que encontramos com preço razoável é essa, que fica um pouquinho longe daqui. Adorei o bairro, o carro e o café que tomamos por lá.


Pegamos a estrada e seguimos em direção à península de Setúbal,  que fica pertinho de Lisboa (uns 40 minutos), mais ao sul, com o intuito de visitar alguma adega produtora de vinhos. Paramos na Quinta da Bacalhôa, que é bem grande e conhecida, e soubemos que esse mês eles estão fechados para visitas. E além disso teríamos que ter agendado. O lugar é bem bonito e eu fiquei com vontade de conhecer mesmo. Nos informamos sobre os eventos relacionados à vindima (colheita das uvas) e decidimos que voltaremos lá em setembro. Fomos embora não sem antes comprarmos um vinhozinho local.


Subimos até o Castelo de Palmela, na mesma vila em que estávamos. O castelo é grande e bonito, mas está bem abandonado. A vista de lá é muito bonita, cheia de campos de plantação de uvas. Dizem que a primeira vez que teve gente morando nessa região foi em 310 a.C., mas o castelo foi mesmo construído pelos mouros no século X. Hoje tem uma pousada instalada em uma parte do castelo, fazendo parte de uma rede de hotéis em lugares históricos.

Descemos em direção à praia e entramos no restaurante Ribeirinha do Sado, em Setúbal mesmo. Lá eu comi uma das coisas mais gostosas que já comi na vida: almeijôas com limão. Queria mais nada! Fiquei lá, me divertindo e me deliciando, olhando pro Leandro rindo do meu gosto pela especiaria. Ele comeu filés de garoupa fritos, que também estavam bem gostosos. Experimentamos um bolinho de miga, mas não gostamos não.


Continuamos nosso passeio pela Serra da Arrábida, que é cheia de praias em sua volta. Pesquisei e parece que ninguém sabe direito da onde veio esse nome, mas há quem diga que tem origem no árabe e significaria algo como "local de oração". Gostei. O lugar é lindo de maravilhoso. E no dia que fomos tinham umas nuvens envolvendo o rio e as montanhas, que estavam surreais. Até que ficamos com vontade de descer até a praia de Portinho da Arrábida, mas o trânsito e o movimento estavam tipo Itacoatiara em janeiro, sendo que a gente teria que fazer uma trilha pra chegar até lá e além disso não encontrávamos lugar pra parar o carro. Obstáculos intransponíveis para nós.



Voltando pra Lisboa, paramos em uma plantação de uvas pra tiramos umas fotos e Leandro roubar um cacho de frutinhas. Depois fomos direto pro Jardim de Estrela. Sabíamos que haveria um evento por lá e eu queria ver isso de perto, porque parecia ser bem interessante. O evento foi organizado pela IKEA, que é uma loja sueca de móveis e coisas pra casa, que tem em tudo quanté lugar aqui na Europa. Pense numa Tok Stok com 5 mil vezes mais coisas e muuuuito mais barata. Pensou? Então, é ainda melhor! E eles resolveram montar um hotel ao ar livre no jardim, para divulgar o catálogo novo deles. Você ia andando pelo parque e encontrava camas de todos os tipos, com roupas de cama lindas e pessoas deitadas nelas lendo livros, conversando, dormindo. Muito engraçado! Além disso eles organizaram alguns workshops também, como aula de costura e oficina pra crianças. Experimentamos um cachorro quente delicioso que eles diziam ser à moda sueca: com cebola frita em cima.


Tá bom, já, né?

Dia 12 - Medalha de prata


Quase todo dia eu falo com a minha amiga, Mari, que mora longe de mim há muitos anos e mais longe ainda nos últimos 2.


A gente conversa sobre tudo. Sobre a nossa infância e adolescência, sobre o trabalho dela, seu namoro, nossas famílias, amigos, a vida em Nova York e a vida em Lisboa.

Ela fala que apesar da dificuldade em estar longe das pessoas que ela ama, pelo novo amor e toda a estrutura que ela encontra por lá, a Mari tem planos de construir seu futuro em NY mesmo. Muitas vezes ela pensa em desistir, mas ainda acha que vale a pena continuar por lá.

A gente fala da nossa vontade de viver mais um tempo em Lisboa e de como nos sentimos privilegiados em podermos voltar pra casa a uma da manhã de metrô, sem achar que qualquer pessoa que cruze o nosso caminho possa nos causar algum tipo de mal.

Mas no final do dia, os nossos corações batem forte  e acelerados por um motivo em comum: duas pessoas disputando, através de um jogo, com todas as suas forças, uma medalha de ouro pro nosso país. E dá uma tristeza porque a medalha conquistada foi de prata.

Dia 01 - Tudo novo de novo

Eu e Leandro chegamos ontem em Lisboa. Essa é a segunda temporada que passaremos na cidade esse ano. Chegamos aqui pela primeira vez no dia 1 de abril para passar 3 meses e agora ficaremos por mais 2 meses.

Me sinto menos empolgada, mas mais tranquila dessa vez. É muito confortável saber exatamente onde ficarei hospedada, quanto tempo leva até lá, quanto custa o taxi, onde podemos comprar comida e como será a imigração. Quer dizer, achar que sabe...

Assim que pisamos no aeroporto eu fui tranquila e serelepe pra fila da imigração. Da outra vez nossa "entrevista" não demorou mais que 2 minutos, pois foi feita apenas uma pergunta: quanto tempo ficarão? Respondemos, nossos passaportes foram carimbados e ouvimos um bom dia, em seguida.

Dessa vez, a primeira pergunta foi a mesma, mas seguida de outra: e o que vocês fazem da vida para virem passar 2 meses de férias em Portugal? Dei uma risadinha, que expunha justamente o contrário do ódio que eu já começava a sentir, e expliquei a situação. Ele começou a falar um monte, que o visto estava errado e quando tentávamos explicar, ele nos interrompia, utilizando diversas vezes a expressão "não interessa". Essa frase não é algo tão ofensivo aqui em Portugal quanto no Brasil, como já pude perceber quanto estivemos aqui antes. Mas acontece que eu sou brasileira, e vou encarar a tal expressão da mesma forma em qualquer lugar do mundo! O ódio só aumentava quando ele falou que "meu caso era pior" e me explicou tudo que eu já sabia, e que não me impedia de entrar no país.

No fim, ele simplesmente carimbou os 2 passaportes e nos desejou bom dia. Eu agradeci por todas as explicações enquanto, na verdade, eu queria socá-lo! A "otoridade" só queria demonstrar seu poder!

Viemos pra casa. Estamos hospedados no mesmo apartamento em que estivemos no semestre passado e eu realmente já me sinto em casa!

Pra começar


Há um tempinho, logo depois que tomei coragem pra abandonar a profissão que me fazia infeliz, estava entrevistando um menino português, de Lisboa, fofo de tudo, quando perguntamos pra ele: "O que você gosta de fazer? Tem algum hobby?", e ele respondeu: "Eu gosto imenso de..."

Não escutei mais nada, nem lembro do que ele gostava. Abri um sorriso (que fez com que ele tivesse certeza que tinha sido aprovado no processo seletivo) e nunca mais esqueci essa expressão.

Alguns meses depois, cá estou eu em terras lusas cheia de reflexões, informações e idéias sobre coisas de que gosto imenso. E eu preciso compartilhar. Nem que seja com o computador.

Então...