Dia 60 - Até já

Desde que eu lembro de ter sonhos nessa vida eu quero morar fora do Brasil. Não que eu não queira estar no Brasil. É justamente o contrário que me move. Eu quero estar no mundo, em todos os lugares, viver de perto outras culturas e belezas, aprender outras línguas, lidar com diferentes pessoas. E, assim, encher a minha história de informações e experiências.

Só que esse não é o tipo de sonho que finda quando se realiza. Há alguns anos eu passei 3 meses em uma cidadezinha perto de Londres e aí eu voltei. E o sonho continuou. A verdade é que eu só não sonho em estar fora da minha terra natal quando aqui estou.

Quando o Leandro chegou em casa falando da possibilidade de irmos pra Portugal, é óbvio que eu topei. E comecei a pensar o quanto seria bom passar um tempo na Europa, viajar por lá, conhecer novos lugares. Eu já sabia que seria uma temporada maravilhosa.

O que não sabia é que eu ia me apaixonar. Muito menos que o mesmo ia acontecer com o Lê. Mas foi isso que Lisboa fez com a gente. Passar quase 6 meses nessa cidade foi um carinho de Deus pra deixar esse sonho ainda mais gostoso de se viver.

Na nossa última manhã fomos resolver algumas pendências e na volta passei na Padaria Portuguesa pra mais um pão de Deus. No caminho de volta apreciei, mais uma vez, cada bondinho que passava. A despedida só ficou mais fácil porque minha esperança era de voltar logo. Seria impossível voltar à Europa, ou passar por ela, sem ficar um tiquinho na nossa cidade do coração.

Mas eu não queria escrever sobre esse dia, porque assim como eu não queria que chegasse o último dia em Lisboa, eu não queria que chegasse o último dia desse blog. Me apeguei, ué.

E eis que Deus dá pra gente mais um presente, nos surpreendendo e nos deixando, mais uma vez, conscientes do quão pouco sabemos. Teremos a oportunidade de voltar a Lisboa, dessa vez pra ficar, pelo menos, 1 ano. Felicidade que não cabe!

Mari Magno, minha amiga querida e talentosa, sabendo que esse blog, então, estaria por aí ainda por um bom tempo, fez toda essa lindeza azul e laranja que vcs tão vendo! Brigada pelo seu amor, amiga!

Até a volta pra Portugal eu vou continuar atualizando o blog, escrevendo sobre as viagens que fizemos e lugares que conhecemos nos primeiros meses que lá estivemos.

Voltem pra me visitar! Até já!

Dia 59 - Almoço de trabalho (do Lê), o Brasil no MUDE e Sol e Pesca

Fui almoçar com o Lê e os amigos de trabalho. Sinto uma alegria profunda em poder participar da conversa sem precisar que eles repitam todas as frases de forma mais devagar. O almoço foi ótimo, como todos os encontros que tivemos com eles. Fomos numa pizzaria, que foi o único lugar que conseguia abrigar tanta gente junta. Acho que pizza é o tipo de comida que é gostosa em qualquer lugar do mundo, né?

De tarde, Leandro foi pra casa terminar de arrumar as coisas dele e eu corri pro MUDE e fiquei lá até ser expulsa pelo segurança. Por conta do ano do Brasil em Portugal, lá foram organizadas 2 exposições  em referência ao Brasil. Sobre a primeira delas já tinha ouvido falar bastante bem e queria ver de perto. O nome é Personagens e Fronteiras: Território Cenográfico Brasileiro e eu recomendo muitíssimo pra quem tiver oportunidade de ver. Ela mostra, através de fotos, maquetes e instalações, os detalhes e figurinos de cenários feitos para produções brasileiras. Foi muito difícil deixar de ficar ali, admirando aquelas cores e ideias, lembrando de filmes e séries dos quais gosto muito e anotando as peças que ainda tenho que assistir. Fiquei encantada.

Mas segui para outra exposição, que também muito me interessava: Design Brasileiro - Mobiliário Moderno e Contemporâneo. Cadeiras, mesas, luminárias e pessoas muito talentosas por trás disso tudo. No final um filminho com depoimentos de todos os designers participantes explicando algumas de suas obras. Amei. Vi duas vezes e só fui embora porque fui obrigada.

Voltei pra casa, mas não sem antes dar uma paradinha pela H&M para me despedir.

No início da noite começou a chover muito e o Leandro pensou em pedirmos comida. Eu não queria de jeito nenhum, mas concordei. Era nossa última noite em Lisboa, uma cidade cheia dos mais deliciosos restaurantes e eu ia comer algo requentado? Não tava nem um pouco satisfeita, mas chovia muito e eu não tava vendo outra saída. Fiz tanto bico que a chuva parou e o Lê não conseguiu ligar pro lugar que ele queria.

Graças a Deus isso aconteceu e nós pudermos conhecer o Sol e Pesca, que fica no Cais do Sodré, pertinho de onde estávamos. Esse lugar é super conhecido e frequentado pelos próprios lisboetas e eu tava cheia de curiosidade pra conhecê-lo. A história dele é basicamente a seguinte: era uma antiga loja que vendia materiais para pescaria, que acabou fechando e foi quando uma pessoa visionária pensou em abrir um bar no mesmo lugar, onde só seriam servidos enlatados. Um beijo pra esse cara!

O lugar é escuro, as mesinhas e cadeiras são apropriadas para crianças com cerca de 5 anos e no cardápio constam apenas sardinhas, atuns e afins, mas você também pode escolher através da beleza das latinhas que ficam dispostas numa espécie de cristaleira, que já era da loja. Pronto. Ganhou meu coração! Pedi sardinha e o Lê atum. Tudo vem servido com um fio de azeite, pedacinho de limão e torradinhas. É isso, gente. Sabe simples e perfeito? Depois eu pedi mais uma sardinha e o Lê o presunto de atum, recomendadíssimo pelo carinha que nos atendeu, que, aliás, era extremamente atencioso e simpático, características das quais sinto falta no atendimento tanto brasileiro quanto português. Acontece que o Leandro não apreciou a tal recomendação e eu tratei de resolver esse problema. Obrigada, moço, pela indicação. Eu nunca vou me esquecer dessa iguaria.

Último dia inteiro mais que perfeito. Uma pena ter sido o último.

Dia 58 - As malas

Eu já sabia que teria que abrir mão de algum dia passeando pela minha adorável Lisboa. Mas mesmo assim eu sofri. Por não poder aproveitar a cidade e pra conseguir colocar roupas, louças, azulejos, sabonetes e afins dentro das nossas poucas malas. Eu já sabia que não dava pra levar a maioria das coisas que queria. Os prédios são pesados e as escadinhas longas. E mesmo assim eu sofri.

Dia 57 - Sushi, Centro Cultural de Belém e mais um pastel, se faz favor


Dormimos super tarde na noite anterior e acabamos acordando já na hora do almoço. Fomos pro Chiado escolher um restaurante e me deu vontade de entrar naquele japonezinho da esquina da Rua Anchieta, o Fashion Sushi. Apesar da má impressão que esse nome me dá (essa palavra já deu, né?), o lugar era lindo e estava com pouca gente. Leandro foi de yakisoba (ele não curte japa) e eu comi um combinado muito do bom. De lá partimos pra Belém pra conhecer o Centro Cultural.

Como é ano do Brasil em Portugal (que vai de setembro de 2012 a junho de 2013), o país tá cheio das programações envolvendo artistas brasileiros, como shows, exposições e palestras. No CCB tinha acabado de abrir a do Helio Oiticica e a gente (quero dizer, eu) queria ir lá ver. Mas, depois que cheguei lá, as obras dele foram as que menos me chamaram atenção (apesar de ter me divertido muito com elas, porque Leandro, meu marido desculturado, fazia piada de todas). O lugar é maravilhoso. A área externa (que aparece aí na foto) é feita pra você perder (ganhar) tempo nela. E há ainda tantos trabalhos lindos de outros artistas, como a Joana Vasconcelos. Lá dentro fica o Museu Coleção Berardo que abriga arte moderna e contemporânea, cheio de cores e ideias que fazem meus olhinhos brilharem. E pra finalizar o passeio, dou de cara com a melhor loja de museu da cidade. Compramos um caleidoscópio da vida real que é o maior sucesso entre os amigos que frequentam minha casa. Quase um alucinógeno. Amei tudo.

Antes de ir embora, já que estávamos em Belém, óbvio que a gente não ia pra casa de mãos abanando. Saboreamos nossos últimos pasteizinhos de Belém. Até logo, amores. (Tô falando com os pasteis).

Dia 56 - Vindima, Costa da Caparica e cachorro-quente à brasileira

No início dessa segunda temporada nós estivemos em Palmela, que é a Capital Europeia do Vinho nesse ano de 2012. Lá, através de uns folders, soubemos que eles teriam diversos eventos na época da vindima, que acontece em meados de setembro em todo o país. A vindima é o momento da colheita das uvas destinadas à produção de vinho. É um momento muito especial pros portugueses, em geral, mas principalmente dos produtores, sejam eles pequenos ou grandes. 

Quando esse dia chegou eu estava igual criança em véspera de Natal! Uma ansiedade que me preocupava porque eu achava difícil de aquele sábado corresponder a tudo que tava esperando. Tínhamos pago 20 euros por uma programação que incluiria participar da colheita, conhecer a adega Horácio Simões (promotora, junto com o município, do evento), pisar as uvas (!!!) e, ao final, um almoço.

A verdade é que essa manhã superou, e muito, as minhas expectativas! Chegamos atrasados na adega e já saltamos pra dentro do carro que nos levaria até as plantações. Lá nos juntamos a um grupo de pessoas pontuais e começamos a colher uvas roxas, cuja casta eu não consegui entender o nome. Depois colhemos umas uvas que sobraram nos pés de moscatel, que estavam um mel!

Voltamos pra adega, onde aprendi um monte sobre produção e armazenamento do vinho. Você sabia que é essencial que as uvas roxas sejam pisadas? Sim, porque é assim que o pigmento colorido é liberado, gerando o líquido tinto, afinal a polpa mesmo, protegida pela casca, é geralmente branca ou transparente. E lá estava um tanque cheio delas pra gente pisar. Eu pensei duas vezes antes de entrar porque a "piscina" era meio funda (pra mim, né), mas não resisti.

E simplesmente amei essa experiência! Eu podia viver fazendo isso! O líquido é bastante denso e provoca cócegas relaxantes. Pelo menos eu senti isso, mas tinha gente que nem se mexia. Em alguns pontos do tanque o líquido estava mais quente que em outros e isso se deve às diferentes fases da fermentação. A maioria das pessoas que pisavam as uvas, participando do evento conosco, eram mulheres portuguesas e elas começaram a cantar um monte de músicas típicas, coroando aquele momento. Mas dentro da minha cabeça o que eu eu não parava de ouvir mesmo era " I had the time of my life!". 

Depois fomos almoçar com os nossos novos amigos uma deliciosa carne de porco com vinho local acompanhando. O moscatel deles é muito bom e, segundo os entendidos, faz jus aos prêmios recebidos.

Como eu já escrevi demais, serei obrigada a resumir o resto do nosso dia, que continuou maravilhoso. No caminho de volta encontramos Zé e Sérgio e conhecemos uma praia lindíssima na Costa da Caparica. Voltamos pra Lisboa e fomos jantar na casa do Sérgio. Saboreamos um ótimo cachorro-quente à brasileira, que significa justamente isso: salsicha, molho de tomate, cebola, pimentão. Chegando em casa, depois de quase 60 dias de sol, pegamos uma chuva torrencial. Foi a primeira dessa temporada, bem no primeiro dia de outono. Tem como não amar um país que respeita equinócios e solstícios?!

Dia 55 - Jantar de despedida

No trabalho, Leandro conviveu com um grupo grande de portugueses que divertiam seus dias. Ora por falarem coisas engraçadas, ora por representarem, sem querer, algumas piadas que conhecemos. Deles se tornou amigo. E eu, por tabela, conheci pessoas de quem espero receber visitas. Acho que isso foi um dos  pontos que nos fez adaptar tão bem a Portugal. A facilidade com que encontramos pessoas com quem pudemos bater papos bons e longos.

Na nossa última semana, não podia deixar de acontecer, então, um tradicional jantar de despedida. Fomos a um restaurante que eu não lembro o nome (sorry!), perto do Jardim Zoológico, comer galinha à cabidela, que é como eles chamam o frango ao molho pardo e que aqui no Brasil, eu nunca tinha comido.

A galinha veio num arroz com bastante caldo, quase que como uma canjinha, mas com o molho especial, que é feito com seu sangue. O prato estava muito saboroso e eu adorei ter vencido o meu preconceito inicial. Leandro também gostou bastante.

Depois do jantar, quando o restaurante fechou, fomos quase todos para o segundo round da noite. Em Lisboa é muito comum que as pessoas passem por 3 ou quatro lugares, entre restaurante e bares, em uma mesma noite. Depois de jantarem (refeição sagrada pra eles), eles seguem pra um bar e depois pra outro e pra outro até cansarem. Mas ninguém tava a fim de toda essa peregrinação depois de um dia de trabalho não! 

A ideia inicial era irmos "tomar um copo" (tradução: beber um chopp) no Bairro Alto, mas a dificuldade para se chegar lá e estacionar nos venceu e fomos parar no Terreiro do Paço, onde quase todos beberam café e não chopp. Eu tomei um café com uma bola de sorvete dentro, que foi uma ótima sobremesa.

Depois de algumas horas de boas risadas, fomos andando pra casa. E eu me dei conta de que não era somente das fachadas bonitas, das ladeiras e da comida boa que eu sentiria falta.

Dia 54 - O fado da Mesa de Frades

Vou começar com mais pedidos de desculpas, mas dessa vez exclusivos ao meu pai, que tanto tentou nos arrastar pra ouvirmos fado com ele. Por conta de uma filha preconceituosa ele perdeu a oportunidade de, na terra de Amália, ouvir o gênero musical que a tornou uma estrela.

Já fazia um tempo eu e Lê estávamos atrás de um lugar para participarmos de um concertinho de fado. Sim, participar, porque o fado não é só pra ouvir. É uma experiência pra ser vivida.

O Leandro já tinha estado em um restaurante, o Vossemecê (Rua de Santo Antônio da Sé, 14), com os pais, para uma noite do chamado fado vadio, que é o feito por não profissionais. Lá não se paga couvert artístico, você não é obrigado a comer qualquer coisa para ouvir o fado (a comida também não é das memoráveis) e os fadistas são os próprios donos do estabelecimento, que junto ao canto, trazem as histórias das músicas e uma presença de palco importante. Em um dado momento acontece a "desgarrada", quando qualquer pessoa ali presente pode também cantar o fado. No dia em que o Lê foi ao restaurante, uma mulher que não falava português resolveu se arriscar cantando uma espécie de fado, só que em inglês. E ela arrasou.

Eu não queria repetir o lugar que ele já tinha ido e decidi que iríamos à Mesa de Frades, depois de ler a indicação do Turomaquia. O restaurante fica numa antiga capela e lá você paga um valor fixo para jantar (menu no valor de 39 euros que inclui entradas, prato principal, vinho, sobremesa e café) e assistir o fado. Fizemos nossa reserva para as dez da noite, uma hora antes do fado começar. É, geralmente começa bem tarde e não tem hora pra acabar. 

O lugar é minúsculo e lindo, com azulejos por todas as paredes e o jantar estava delicioso. Leandro comeu alheira e eu carne de porco, acompanhada de um ovo de codorna frito (óun). Adorei a sobremesa, que é uma espécie de degustação com pequenas doses de vários doces típicos. 

Quando o pessoal já tinha terminado de jantar, chegam os músicos, que ficam posicionados à porta do restaurante para começar a cantoria. As luzes se apagam, velas são acendidas e pede-se silêncio absoluto criando um clima muito especial. Nesse dia, os músicos pediram até que o ar condicionado fosse desligado, o que fez todo mundo que tava lá sofrer mais do que o necessário para a aprecisção desse tipo de música. A fadista que iniciaria os trabalhos parecia ser bem novinha e ficamos curiosos para ouví-la. Quando ela abriu a boca, a pequena sala se encheu e eu fiquei bem impressionada com sua afinação e a emoção que transmitia com sua linda voz. É muito interessante ver gente nova carregando pro futuro essa tradição tão importante. Quando a música acabava, ela mudava totalmente de postura, mostrando a menina tímida que na verdade é. 

Depois de algumas poucas músicas, houve um intervalo, o que devo admitir, nos trouxe certo alívio, porque já estávamos quase sem conseguir respirar lá dentro. Mais pessoas entraram e o lugar ficou abarrotado de gente em pé para assistir o fado. Quando o longo intervalo terminou, mais uma curta rodada de músicas no calor e novamente um intervalo, que pareciam ser alongados de acordo com a vontade dos músicos, que notamos serem um tanto quanto marrentos. 

Como geralmente vários fadistas (como são chamados os cantores) participam de uma noite dessas, apesar de termos gostado da primeira, esperávamos ouvir outras vozes, o que deixaria a apresentação mais rica pra gente, mas isso só aconteceu depois de algumas horas e a segunda fadista, apesar de uma maior presença de palco, não chegava aos pés da primeira em potência vocal. Às 2 da manhã, suados, resolvemos ir embora um pouco decepcionados com o fado do restaurante. Ficou a vontade de, na próxima vez em Portugal, procurarmos outro lugar até encontrarmos a experiência perfeita.

Dia 53 - Gulbenkian e Miradouro da Graça

Gente, mil desculpas pelo sumiço! A verdade é que eu resolvi aproveitar cada segundo dos meus últimos dias em Lisboa.  Tem tanta coisa acontecendo que o tempo em Portugal já parece ter ficado em um passado meio distante. Mas, graças a uma feliz coincidência (1 mês que deixamos Portugal + um Globo Repórter sobre as maravilhas gastronômicas da terrinha) eu voltei e vai demorar pra eu largar esse espacinho de vez. Acreditem e voltem vocês também!

Voltemos ao dia 53. Perto do final do nosso tempo em Portugal, percebi que tinha uns lugares que eu queria conhecer, mas fui adiando, adiando... Nesse dia fui até o Museu Calouste Gulbenkian. Já tinha ouvido falar muito bem da coleção e do jardins em volta da Fundação, onde fica o Museu. E eu fico muito impressionada com essas pessoas obcecadas apaixonadas por arte a ponto de tornarem sua própria casa um museu. A cada corredor, tinha uma foto com os quadros, esculturas e vasos quando alocados na própria mansão do colecionador, em Paris. Tudo que ele colecionou acabou por ser distribuído por vários museus entre Europa e Estados Unidos. Diz-se que  seu sonho, ao final da vida, era que todas as peças da sua coleção ficassem sob um só teto. Isso aconteceu 14 anos depois que ele morreu, em Lisboa.

O Museu não é muito grande, mas as peças que constam da coleção são mesmo muito interessantes e preciosas. Arte grega, romana, islâmica, egípcia, chinesa. De tudo um pouco. Confesso que tenho dificuldade de apreciar arte proveniente de continentes que não seja o que eu estou. Não gosto de ver pedaços do Egito estando fora do Egito. Acho a coisa mais linda as louças chinesas, mas sei que vai ter um gosto muito mais especial quando eu estiver na China. Mas não posso negar que a coleção é toda linda sim. E se você estiver em Lisboa por mais tempo que os habituais 5 dias do turista tradicional, vale a pena conhecer.

No final da tarde, Leandro chegou animado para uma subida ao Castelo de São Jorge. O intuito era tirarmos fotos da vista de Lisboa à noite, inspirados pela grande foto que cobria uma das paredes do nosso lar lisboeta. Quando a gente chegou lá em cima havia uma confusão de estudantes por conta da praxe dos "caloiros" (é tipo o nosso trote, mas esse assunto fica pra um outro post). Somado a isso o fato de que teríamos que pagar para entrar no Castelo fez com que decidíssemos seguir até outro local pra conseguirmos as tais fotos. Subimos, então, até o Miradouro da Graça, onde fica a Igreja de mesmo nome. Enquanto eu curtia  o ventinho frio, o Leandro tirou várias fotos belíssimas, também dignas de exposição no nosso apartamento, agora em Niterói.

Dia 52 - A loja mais bonita da cidade, São Roque e Príncipe Real

Encontrei a loja mais bonita da cidade e agradeci a Deus por não tê-la visto antes, pois gastaria todo o dinheirinho do meu marido lá mesmo. Chama-se a Vida Portuguesa e fica numa rua super fofa, a Rua Anchieta, no Chiado. Nunca tinha entrado nessa rua. Na esquina dela tem uma obra que não acaba e isso me dava uma impressão ruim. Mal sabia que atrás daquela nuvem de poeira encontraria essa belezura! Lá tem de tudo um pouco, mas sempre produtos que tenham relação com Portugal. Em uma área sabonetes fabricados aqui, em outra sala ficam as geleias e outras comidinhas típicas, e em outra paninhos e cadernos. Lá também tem livros, jogos, forminhas de biscoitos e doces e muitas sardinhas: enlatadas, em imã, em papelão, em cerâmica. E a Amália cantando "é uma casa portuguesa, com certeza". Eu queria morar lá.

Depois subi até uma praça onde tínhamos ido um dia à noite: o Jardim São Pedro de Alcântara, junto ao Elevador da Glória. Tirei umas fotos e continuei até a Igreja São Roque. Eu sou uma grande apreciadora de igrejas católicas. (Apesar de me incomodar bastante com algumas coisas como, por exemplo, encontrar muito mais referências a um Cristo machucado, morto e enterrado, do que a Ele ressurreto e vivo.) Me agrada a arte em seu lugar original, para o que ela foi criada naquela ocasião. E a grandiosidade da arquitetura continua a me deixar perplexa, assim como fazia com as pessoas há centenas de anos atrás. Gosto de pensar em quanta história tem naquele ambiente. Esta igreja é branquinha por fora, mas muito ornamentada por dentro com pinturas (tem uma gigante que cobre todo o teto), trabalhos em mármore nas colunas e muito ouro no altar. Toda essa formosura tinha razão: atrair os fiéis em época de contrarreforma. Lá dentro, comecei a ler sobre a Capela de São João Batista e fiquei abismada. Ela foi encomendada por D. João V a artistas italianos, construída lá na Itália e trazida para Portugal em 3 naus! Peguei meu queixo no chão e continuei meu passeio.

Andei até a praça do Príncipe Real. Pelo caminho um monte de lojas fofas. Na volta passei na Padaria Portuguesa, que fica aqui pertinho, e tem como especialidade o Pão de Deus. Uma espécie de pão doce com coco. Mas lá a gente encontra também outras gostosuras, como os croissants e o pão com azeitona. Ficar magra pra quê, né, gente?!

Dia 51 - Sim, já tô com saudades

Esses dias a Mari bem observou que eu já estou procurando reviver certas situações por aqui. É verdade. Não sei quando poderei cá estar novamente. Tenho revisitado certos lugares e tentado aproveitar tudo nesses últimos dias. Últimos 9 dias, mais precisamente. Mas andar pelos corredores do supermercado com uma carinha tristonha e um sorrisinho nostálgico é um pouquinho demais, né? Acho que o caso é grave. O que que eu posso fazer se eu amo essa cidade?!

Quando voltei pro Brasil, em junho, e o povo me perguntava como tinha sido o tempo aqui, eu respondia: "Tô apaixonada!" E esse também era o sentimento do Leandro. Mas agora é diferente. Eu já conheço esse lugar e posso dizer que é amor. Do tipo que dura. Ao qual você se apega. Deixar esse lugar corta o meu coração. (Ih, acho que já tô podendo até ganhar a vida compondo fados)

É verdade que eu também amo Niterói, onde moro, e o Rio, onde passei mais tempo dos meus dias, por conta do trabalho e dos estudos. Acontece que, pra mim, o Rio é como aquele homem lindo, que tem predicados como o Pão de Açúcar e o Arpoador, mas mau-caráter, que te traz insegurança, confusão e vira-e-mexe te aborrece. Já Lisboa não. Não é dona de uma beleza natural como a do Rio (mesmo porque isso é quase impossível), mas é muito bonita aos meus olhos, verdadeira e com os seus defeitos eu bem consigo lidar.

Agora, tchau, que eu vou subir ladeira!