Do tamanho do mundo

O mundo é tão grande. Nesse momento mais de 7.000 km me distanciam da minha família, que mora em Niterói. Isso hoje, porque há pouco tempo meu pai morava a 900 km da minha mãe e meu irmão passou uma temporada 400 km longe deles. (Astrid, querida, se quiser filmar um episódio de "Chegadas e Partidas" lá em casa, é só falar!) Aqui na Europa, segundo menor continente do planeta, tem uns 50 países e eu pretendo visitar mais ou menos metade deles. Fora os países que quero conhecer em outros continentes, dos quais estou mais perto, como África e Ásia. Tantas línguas, tantas culturas, tanta gente. Quando ando pelas ruas de Lisboa fico imaginando quantas pessoas já andaram por cima dessas pedrinhas. Portugal tem atualmente cerca de 10 milhões de habitantes. Menos habitantes que o estado do Rio, o terceiro mais populoso do Brasil. No mundo são mais de 7 bilhões, sendo que nasce mais de um bebê a cada segundo.

E no meio de tanta gente eu encontrei o amor da minha vida morando do lado da minha casa, em Angra. 14 anos depois de nos conhecermos, mudamos de hemisfério, o que foi feito em menos de 10 horas de vôo. Uma das coisas que trouxemos foi o cd da Laurinha, pra diminuir a distância, amenizar a saudade e entregar pra Luísa, uma amiga portuguesa que ela conheceu no Brasil. Conheci Luisinha, seu primo brasileiro, Mateus, que estava passeando por aqui, e sua namorada, Bia, que, assim, como eu, fez faculdade de Direito (o que não é coincidência, já que metade da população do Rio de Janeiro, segundo estatísticas minhas, fez) e depois fez EMERJ, por sinal, na mesma turma que minha amiga de faculdade Aline. E por falar em amigas de faculdade, amanhã vou almoçar com a Ana Paula, que, fiquei sabendo, por acaso, através do facebook, estudou Farmácia com Geisa, com quem estudei no cursinho e de quem fui vizinha. O facebook também me informa das andanças da Tati, com quem comi pastéis de Belém na semana passada e que conheci em Londres, através do Filipe. Ah, o Filipe é um amigo que fiz quando passei um mês no Sertão Nordestino e que atualmente é missionário no Líbano, onde vive com sua linda esposa, Cris, que, aliás, já frequentou a mesma igreja que eu em Niterói. Igreja cujas pregações (sobre o que existe além desse mundo que podemos dimensionar) eu assisto aqui mesmo, no computador. Como esse mundo é pequeno.

Sintra e seus palácios

Sintra é uma vila que fica bem do ladinho de Lisboa e geralmente está incluída nos roteiros turísticos de quem vem pra cá, já que em poucos minutos, de trem, de carro ou de ônibus, se chega lá. Um dia de passeio em Sintra quase te faz pensar que você é da família real. Mas pra conhecer bem o lugar é necessário mais que um dia, dada a quantidade de parques, palácios e castelos que se pode visitar. Aí embaixo, uma listinha dos principais.

Castelo dos Mouros - Supõe-se que o castelo tenha sido construído em meados do século VIII pelos muçulmanos que ali moravam, tendo sua posse, juntamente com a posse de Sintra, sido alternada entre mouros e cristãos até o século XII. Mesmo após tanto tempo e destruição causada pelo terremoto de 1755, as muralhas que se vêem lá são ainda as originais. De lá de cima temos a vista de boa parte da região e do Atlântico, explicando o porquê do castelo ter sido tão disputado.

Palácio Nacional de Sintra -  Assim que se chega em Sintra, avista-se esse palácio e suas grandes chaminés em formato de cone. Desde sua construção, no século XII, já foi residência da família real e também utilizada como casa de verão, já que o clima em Sintra é bem mais fresquinho que em Lisboa. Com aquelas roupas que eles usavam, realmente devia ficar insuportável viver em Lisboa sem esse advento milagroso chamado ar condicionado.

Palácio de Monserrate - Construído por um inglês em 1858 para se tornar a residência de veraneio da família, é um típico exemplar do romantismo português e de como os ingleses adoram Portugal. O trabalho de paisagismo dos jardins que o rodeiam ficaram a cargo de um botânico e um pintor. Deve ser por isso que as fotos parecem mesmo quadros.

Palácio da Pena - Situado no ponto mais alto de Sintra, chama a atenção de qualquer um que passa por ali por causa do seu colorido. Foi construído no século XIX no lugar de um mosteiro que tinha sido muito afetado pelo terremoto de 1755. Com influências arquitetônicas mouriscas e manuelinas, o palácio é rodeado por um parque lindo acrescentando muito verde às suas cores.

Quinta da Regaleira - Você acha que é um adulto maduro até chegar nesse parque e perceber como pode se divertir tanto ao se perder em labirintos, andar por tuneis completamente escuros e atravessar laguinhos através de caminhos de pedras. A Quinta da Regaleira é um lugar incrível e dá pra passar um dia inteiro (ou mais) fazendo trilhas por lá. O parque e suas construções aliam a arquitetura renascentista, manuelina e gótica às ideias do seu antigo proprietário, um sonhador apaixonado por mitologia e esoterismo. Não sei onde mais seria possível encontrar uma torre cuja base fica abaixo do nível do chão e seu cume na superfície. Fotos não traduzem a experiência que é explorar esse lugar.

Ah, antes de ir embora de Sintra é imprescindível passar na Pastelaria Piriquita (Rua das Padarias, 1) e saborear a tradicional queijada ou o delicioso travesseiro. Ou os dois.

E como é que vai?

A pé - É minha forma preferida de me deslocar em qualquer lugar que eu vou. Aqui mais ainda. Porque, assim, eu consigo olhar a arquitetura bonita dessa cidade, entrar num beco que apareceu do nada e parar pra tomar um sorvete quando me dá na telha. O fato da cidade ser pequena também ajuda. E, além disso tudo, existem alguns lugares aqui em que é praticamente impossível chegar sem ser com os próprios pés. Eu tenho pra mim que só se conhece de verdade uma cidade quando se anda por ela. Mas tem que preparar as perninhas porque são muitas ladeiras pra subir! Ah, e quando você vir uma plaquinha escrita "passagem para peões" é com você mesmo, pedestre, que ela está falando.

Metrô (ou metro, assim sem acento) - Talvez porque não exista metrô na cidade em que eu morava. Talvez porque o metrô da cidade ao lado tenha linhas paralelas e pouco eficientes. Talvez porque as estações são quase todas lindas e temáticas e é sempre fresquinho lá embaixo. Talvez por tudo isso eu adore andar de metrô por aqui. O metrô vai até o aeroporto, o que também é bem legal pra quem tá chegando ou deixando a cidade, pois pode ser uma opção mais confortável que o ônibus (por conta das malas) e menos custosa que o taxi.

Ônibus (ou autocarro) - Quando a gente vai pra algum lugar onde o metrô não chega ou demoraria pra chegar, usamos o ônibus e pra isso consultamos o site da Carris. Lá tem todas as linhas e horários em que os ônibus passam, o que faz com que não esperemos quase nada no ponto (ou paragem). Mas, quando a gente não consulta a internet, chegamos no ponto e olhamos pra placa eletrônica que tem lá, onde constam os números dos ônibus que param ali e quanto tempo eles vão demorar pra chegar, sendo atualizada constantemente. Pra mim aquilo acontece por mágica. Mas Leandro me explicou que os ônibus devem ter aparelhinhos de GPS que fazem funcionar esse sistema.

Bonde (ou elétrico) - É o jeito mais lindo de chegar de um lugar a outro. Sem contar que ele é extremamente fotogênico. Quando estiver por aqui, repare. Quando o bonde passa, é um tal de todo mundo em volta sacar câmera, celular e afins. Um passeio no 28 é uma forma muito interessante de fazer um reconhecimento da cidade e ficar impressionado com a capacidade dele de passear em ruas estreitíssimas. Mas cuidado com sua carteira e com quem pode estar interessado nela enquanto você aprecia o cenário pela janela.

Tram - É a versão mais moderna e menos fofa do bonde. Super eficiente e não tem uma vez que eu entre nele e não me pergunte porque isso não existe em Niterói e no Rio. A resposta vem sempre em seguida, mas aqui a gente só vai falar de coisa boa.

Elevador - Com tanta ladeira alguém tinha que inventar algo que ajudasse. O formato é igualzinho ao do bonde e encontrar com algum deles é um grande alívio quando você olha aquele lugarzinho láááá em cima que você queria tanto ir. 

Taxi - Não é caro e, como as distâncias também não são muito grandes, acaba que, muitas vezes, vale muito a pena utilizá-lo, principalmente quando se está viajando em grupo ou com crianças, por conta da praticidade e maior aproveitamento do tempo.

Moto (ou mota. hahaha) - Não se vê muitas motos e scooters rodando pela cidade, mas é um ótimo meio pra deslocamentos de pequena distância dentro e ao redor de Lisboa, principalmente no verão, quando é raro chover. A grande vantagem é que não se perde tempo procurando (e não encontrando) vagas em estacionamentos. Alugamos essa bonitinha aí do lado na Scooter Solution.

Carro - O meio mais confortável e barato pra visitar e conhecer as cidades que ficam perto ou longe de Lisboa. Fora de temporada, o aluguel é bem barato e como o país é pequeno, dá pra conhecer tudinho de carro. Algumas opções de locadoras são Guerin, Eurorentlei e Goldcar.

Trem (ou comboio) - Pra se sentir realmente na Europa, viaje de trem. Os trechos curtos, para cidade próximas, são geralmente baratos. Os trechos longos, para cidades mais afastadas, são um pouco caros se comparados com que o que se pode gastar alugando um carro (isso fora de temporada). De qualquer forma, se você prefere não dirigir, é perfeito. Os trens são super confortáveis e rápidos e como, pra nós, brasileiros, essa é uma experiência pouco comum, eu super recomendo.

Teletransporte - É o melhor meio de locomoção de todos os tempos, mas como ainda não divulgaram sua invenção, para que possamos usufruir, fico eu aqui morrendo de saudades dos meus amores e esperando que eles possam chegar até aqui de avião mesmo.

Sobre panelas, o.b. e garfinhos de plástico

Ouvi falar sobre a Joana Vasconcelos pela primeira vez no ano passado, quando ela expôs alguns de seus trabalhos no Palácio de Versalhes, sendo a primeira mulher e artista plástica mais jovem a fazê-lo. Depois vi outros deles expostos no Museu Coleção Berardo, em Belém. Então, quando ouvi falar que os trabalhos mais interessantes dela estariam sendo expostos no Palácio Nacional da Ajuda até dia 25 de agosto, não podia perder a oportunidade. 

O negócio dela é pegar objetos do cotidiano e colocá-los sob outra perspectiva, num contexto totalmente diferente do usual. Esse tipo de trabalho dá uma torcidinha na minha mente, me faz pensar e rir, sem precisar de um sentido claro. E tudo isso é muito atrativo pra mim. A ousadia dela já é motivo suficiente pra eu gostar.

Decidimos ir na quinta-feira passada, quando seria feriado e o Lê poderia ir comigo. Não é o programa preferido dele, mas é tão bom ter a companhia dele e me divertir ouvindo ele zoando quase tudo. Eu fico toda feliz porque ele topa.

Chegamos lá e a fila pra entrar na exposição tava dando voltas no pátio, percebemos que não passaríamos lá menos de 2 horas. Dei uma super desanimada, mas não queria ter ido lá à toa. Leandro ficou na fila e eu fui achar a bilheteria. No caminho percebi um sinalzinho verde escrito "fast lane" e vi luz no final do túnel. O ingresso pra acessar a fila rápida custava 5 euros a mais e salvou nosso dia.

A exposição estava bem cheia, mas valeu cada centavo e minuto esperado. Entrar numa sala e dar de cara com um brilhante e enorme par de sapatos feitos de panelas de inox e suas tampas não acontece sempre. As fotos não traduzem 10% do que realmente são essas obras. É preciso ver de perto.

E o Lê estar lá foi essencial pra eu gostar ainda mais de tudo. Por motivos diferentes dos meus, ele encontrou interessância em várias das obras e esses motivos também me fizeram enxergar coisas que nem sequer passariam pela minha cabeça. Quando a gente passou por um robozinho todo feito de ferros de passar roupa, eu achei uma gracinha e segui em frente. Leandro me chamou e falou "fica aqui que eles vão se mexer" porque ele tinha percebido a mecânica da parada. E não é que eles se mexeram como flores desabrochando?! Enquanto eu morria de rir do lustre enorme e lindo feito de o.b. (exatamente isso: absorventes íntimos), ele tava lá pensando em quantos tinham sido usados e como foi feita a estrutura. Eu abobada olhando pra um coração gigante feito de talheres de plástico e ele tentando entender como aquilo podia ter sido feito.

Se um dia eu resolver virar artista plástica, já tenho a pessoa ideal pra fazer ideias mirabolantes se tornarem realidade.

O melhor de NYC

Pois é, vou eu me atrever a dar dicas sobre Nova York. Eu sei que todo mundo já fez isso e coisas escritas sobre essa cidade não faltam nas livrarias e blogs. Mas é justamente por isso que vou escrever. Se todo mundo já fez, porque não eu? :)

O melhor cookie da cidade - você encontra ao descer as escadinhas da Levain Bakery, na 74th com a Amsterdam Street. Eu nem sou muito fã de cookie, mas esse aí é outra categoria. Acho até que deveria receber outro nome essa coisa. Pra mim, o acompanhamento ideal pro cookie de chocolate (nunca tive coragem de comer outro sabor) é um copinho de leite gelado. Depois é só correr até o outro lado da cidade e pronto: calorias eliminadas. 

O melhor hamburguer da cidade - não foi saboreado exatamente na cidade, mas ali do ladinho, em Greenport. Preparado pelo Bryan e sua mãe, foi servido no rehearsal barbecue que aconteceu um dia antes do casamento. O hamburguer tava muito gostoso mesmo, mas degustar uma comida tipicamente americana num evento tipicamente americano em meio a pessoas tão tipicamente americanas tornou-o perfeito.

O melhor milk shake da cidade - fica num Shake Shack perto de você e tem sabor de chocolate, do melhor, derretido e gelado.

A melhor hospedagem da cidade - é a casa da Mari e do Bryan! (Fica aqui um agradecimento especial ao Bryan - que, aliás, é o melhor bombeiro da cidade - por ter nos recebido tão bem em sua casa, por ter aturado várias vozes femininas falando português ao mesmo tempo, pelo chá gelado nos dias quentes, pela preocupação e pelo bom humor, mesmo nos dias em que tinha trabalhado milhares de horas seguidas!) Mas o endereço deles é revelado pra poucos. Na verdade eu acho que todos os 5 leitores do blog já conhecem esse endereço. Mas se você está lendo isso e não é amigo da Mari, minha sugestão, diante dos precinhos nada amigos dos hotéis de Manhattan, é que você alugue um apartamento num lugar não tão frequentado por turistas e finja que mora lá. Porque melhor que conhecer NY, é morar lá.

O melhor parque da cidade - Cassia, uma amiga especialista nessa cidade, me apresentou o Bryant Park e nesse dia almoçamos lá. Eu amei de cara. Acho que gosto tanto dele porque numa cidade em que tudo é tão grande, onde tudo é tão overwhelming, aprecio lugares em que eu, estando em uma ponta, consiga avistar a outra ponta do ambiente. E porque lá eu me sinto muuuuito num filme. Tá, em quase todos os lugares de NY eu me sinto num filme. Mas desse filme eu gosto mais.

A melhor loja da cidade - um dia eu quero morar em NY. Mais precisamente na Anthropologie. Fizeram esse lugar pra mim e acabaram esquecendo de me mandar o convite pra eu me instalar. E se eu morasse lá, consequentemente, não teria que gastar um centavo com roupas, louças e fofurinhas, porque tudo já seria meu. Quem sabe um dia?

A melhor pessoa da cidade - é a Mari! Amiga, brigada por você morar aí!




Love is sweet

Uma das primeiras coisas que fiz quando cheguei aqui foi providenciar uma passagem pra atravessar o Atlântico novamente. Mas por que tão cedo? Por um simples e belo motivo: o casamento da minha amiga mais que amada. Se a Mari fosse se casar no Zimbábue ou no Paquistão eu estaria lá. Mas ela se casaria em NY, mais precisamente nos Hamptons. Nem preciso dizer que não foi nenhum sacrifício.

Minha cabeça e coração já estavam com ela há muito tempo, mas como o corpo faz falta. Poder abraçar a Mari depois de quase 2 anos foi tão bom. E também foi bom poder rir, se estressar e chorar de mão dada com ela. Muito melhor que quando fazemos isso com milhares de quilômetros entre nós.

Entre conexões perdidas e vôos desviados pra Venezuela, o resto da trupe (tia Fátima, Lu, mamãe, Lê e Aline) chegou ao albergue apartamento da Mari bem a tempo de nos divertirmos muito, conhecermos a família do Bryan (o noivo!) e enrolarmos brigadeiros e beijinhos pra deixar os americanos ba-ban-do.

Estar na casa da Mari pra mim é tipo estar na minha própria casa. Em Angra, Curitiba ou São Paulo. Sempre foi assim. Desde quando tínhamos pouca idade, muito tempo e aprendíamos inglês com os Backstreet Boys. Mesmo em NY. Porque na casa dela eu posso deitar no sofá pra jogar conversa fora e não sentir um pingo de culpa por não estar desbravando Manhattan. (Testemunhas, deixem-me romancear. Não há necessidade de mencionar que eu tive muito medo de desmaiar na rua por conta de calor riodejaneirês que assolava a cidade).

E então, no dia 27 de julho, quando minha amiga se transformou na noiva mais linda do mundo e foi dançar com o love da life dela, eu estava lá, me emocionando com o olhar deles, cheio de amor um pro outro, abençoados por uma luz linda de fim de tarde. Tudo isso num cenário azul, de céu e de água, e recebendo o carinho daqueles que eles tanto amam.

Brigada, Mari Magno (sim, eu tenho as melhores amigas do mundo e ainda as obrigo a ficarem amigas também!), a quem eu não canso de elogiar por seus múltiplos talentos, por ter captado tão bem, através do seu olhar, a magia daquele dia e, dessa forma, a gente poder revivê-la.

Mari, my lovely friend, eu só desejo que a felicidade que você sentiu naquele dia inunde a vida de vocês dois todos os dias! Because the heavens open up every time you smile.



Por onde for

"As pessoas corajosas também sentem medo, não se engane. Mas ao contrário de quem procrastina, acomoda e não arrisca, elas seguem em frente com medo mesmo."

Li essas palavras em um blog um pouco antes de virmos pra cá e fiquei com elas rondando minha cabeça por alguns dias. A verdade é que mudanças trazem medo.

Mesmo quando a mudança é pra um país com condições melhores que as do nosso. Mesmo que se fale a mesma língua. Mesmo que vocês acredite que estará sempre em contato com as pessoas que você ama. Mesmo que elas venham te visitar. Mesmo que existam tantas pessoas amáveis nesse novo país. Mesmo que sua nova casa seja em uma cidade linda. Mesmo que a comida desse lugar seja deliciosa. Mesmo que você já conheça essa cidade quase tão bem quanto a que você morou nos últimos 10 anos. Eu tive medo.

Assim como o Leandro. Que além das mudanças que estou vivendo, ainda encarará tantas outras por conta do trabalho.

Mas há ainda outra verdade: quando enfrentamos o medo encontramos alegrias recompensadoras. Faz 10 dias que chegamos em Lisboa novamente e tem sido um tempo maravilhoso. Ainda com medinho, mas com o coração cheio de esperança.

Meu amor, obrigada pela sua coragem e pelo privilégio de estar do seu lado nesse momento. Com tantos sentimentos misturados, o mais profundo e real deles é a certeza de que por onde for, quero ser seu par.





Dia 60 - Até já

Desde que eu lembro de ter sonhos nessa vida eu quero morar fora do Brasil. Não que eu não queira estar no Brasil. É justamente o contrário que me move. Eu quero estar no mundo, em todos os lugares, viver de perto outras culturas e belezas, aprender outras línguas, lidar com diferentes pessoas. E, assim, encher a minha história de informações e experiências.

Só que esse não é o tipo de sonho que finda quando se realiza. Há alguns anos eu passei 3 meses em uma cidadezinha perto de Londres e aí eu voltei. E o sonho continuou. A verdade é que eu só não sonho em estar fora da minha terra natal quando aqui estou.

Quando o Leandro chegou em casa falando da possibilidade de irmos pra Portugal, é óbvio que eu topei. E comecei a pensar o quanto seria bom passar um tempo na Europa, viajar por lá, conhecer novos lugares. Eu já sabia que seria uma temporada maravilhosa.

O que não sabia é que eu ia me apaixonar. Muito menos que o mesmo ia acontecer com o Lê. Mas foi isso que Lisboa fez com a gente. Passar quase 6 meses nessa cidade foi um carinho de Deus pra deixar esse sonho ainda mais gostoso de se viver.

Na nossa última manhã fomos resolver algumas pendências e na volta passei na Padaria Portuguesa pra mais um pão de Deus. No caminho de volta apreciei, mais uma vez, cada bondinho que passava. A despedida só ficou mais fácil porque minha esperança era de voltar logo. Seria impossível voltar à Europa, ou passar por ela, sem ficar um tiquinho na nossa cidade do coração.

Mas eu não queria escrever sobre esse dia, porque assim como eu não queria que chegasse o último dia em Lisboa, eu não queria que chegasse o último dia desse blog. Me apeguei, ué.

E eis que Deus dá pra gente mais um presente, nos surpreendendo e nos deixando, mais uma vez, conscientes do quão pouco sabemos. Teremos a oportunidade de voltar a Lisboa, dessa vez pra ficar, pelo menos, 1 ano. Felicidade que não cabe!

Mari Magno, minha amiga querida e talentosa, sabendo que esse blog, então, estaria por aí ainda por um bom tempo, fez toda essa lindeza azul e laranja que vcs tão vendo! Brigada pelo seu amor, amiga!

Até a volta pra Portugal eu vou continuar atualizando o blog, escrevendo sobre as viagens que fizemos e lugares que conhecemos nos primeiros meses que lá estivemos.

Voltem pra me visitar! Até já!

Dia 59 - Almoço de trabalho (do Lê), o Brasil no MUDE e Sol e Pesca

Fui almoçar com o Lê e os amigos de trabalho. Sinto uma alegria profunda em poder participar da conversa sem precisar que eles repitam todas as frases de forma mais devagar. O almoço foi ótimo, como todos os encontros que tivemos com eles. Fomos numa pizzaria, que foi o único lugar que conseguia abrigar tanta gente junta. Acho que pizza é o tipo de comida que é gostosa em qualquer lugar do mundo, né?

De tarde, Leandro foi pra casa terminar de arrumar as coisas dele e eu corri pro MUDE e fiquei lá até ser expulsa pelo segurança. Por conta do ano do Brasil em Portugal, lá foram organizadas 2 exposições  em referência ao Brasil. Sobre a primeira delas já tinha ouvido falar bastante bem e queria ver de perto. O nome é Personagens e Fronteiras: Território Cenográfico Brasileiro e eu recomendo muitíssimo pra quem tiver oportunidade de ver. Ela mostra, através de fotos, maquetes e instalações, os detalhes e figurinos de cenários feitos para produções brasileiras. Foi muito difícil deixar de ficar ali, admirando aquelas cores e ideias, lembrando de filmes e séries dos quais gosto muito e anotando as peças que ainda tenho que assistir. Fiquei encantada.

Mas segui para outra exposição, que também muito me interessava: Design Brasileiro - Mobiliário Moderno e Contemporâneo. Cadeiras, mesas, luminárias e pessoas muito talentosas por trás disso tudo. No final um filminho com depoimentos de todos os designers participantes explicando algumas de suas obras. Amei. Vi duas vezes e só fui embora porque fui obrigada.

Voltei pra casa, mas não sem antes dar uma paradinha pela H&M para me despedir.

No início da noite começou a chover muito e o Leandro pensou em pedirmos comida. Eu não queria de jeito nenhum, mas concordei. Era nossa última noite em Lisboa, uma cidade cheia dos mais deliciosos restaurantes e eu ia comer algo requentado? Não tava nem um pouco satisfeita, mas chovia muito e eu não tava vendo outra saída. Fiz tanto bico que a chuva parou e o Lê não conseguiu ligar pro lugar que ele queria.

Graças a Deus isso aconteceu e nós pudermos conhecer o Sol e Pesca, que fica no Cais do Sodré, pertinho de onde estávamos. Esse lugar é super conhecido e frequentado pelos próprios lisboetas e eu tava cheia de curiosidade pra conhecê-lo. A história dele é basicamente a seguinte: era uma antiga loja que vendia materiais para pescaria, que acabou fechando e foi quando uma pessoa visionária pensou em abrir um bar no mesmo lugar, onde só seriam servidos enlatados. Um beijo pra esse cara!

O lugar é escuro, as mesinhas e cadeiras são apropriadas para crianças com cerca de 5 anos e no cardápio constam apenas sardinhas, atuns e afins, mas você também pode escolher através da beleza das latinhas que ficam dispostas numa espécie de cristaleira, que já era da loja. Pronto. Ganhou meu coração! Pedi sardinha e o Lê atum. Tudo vem servido com um fio de azeite, pedacinho de limão e torradinhas. É isso, gente. Sabe simples e perfeito? Depois eu pedi mais uma sardinha e o Lê o presunto de atum, recomendadíssimo pelo carinha que nos atendeu, que, aliás, era extremamente atencioso e simpático, características das quais sinto falta no atendimento tanto brasileiro quanto português. Acontece que o Leandro não apreciou a tal recomendação e eu tratei de resolver esse problema. Obrigada, moço, pela indicação. Eu nunca vou me esquecer dessa iguaria.

Último dia inteiro mais que perfeito. Uma pena ter sido o último.

Dia 58 - As malas

Eu já sabia que teria que abrir mão de algum dia passeando pela minha adorável Lisboa. Mas mesmo assim eu sofri. Por não poder aproveitar a cidade e pra conseguir colocar roupas, louças, azulejos, sabonetes e afins dentro das nossas poucas malas. Eu já sabia que não dava pra levar a maioria das coisas que queria. Os prédios são pesados e as escadinhas longas. E mesmo assim eu sofri.